Vícios: livre arbítrio, obsessão ou prova?

O tema proposto sugere-nos uma reflexão sobre o que é cada uma das assertivas sugeridas, inclusive sobre os próprios vícios. Esta palavra, aliás, está cercada de tabus e preconceitos que nos levam a ver o dependente – ou viciado, assim nos referimos vulgarmente aos adictos – como se fossem homens e mulheres indignos de nossa comiseração e respeito, ignorando-lhes a condição de seres humanos. Por outro lado, consideramos o vício algo distante de nós e não parte de nós, presente em nós ou próximo a nós.
 
Sim, parte de nós! Quando temos em casa ou em nossas relações afetivas e/ou sociais alguém que sofra dessa doença chamada dependência, temo-la tão próxima que não podemos ser indiferentes, mas devemos nos propor a ser parte da solução.

Comumente, entende-se por vício o uso de alguma substância psicoativa que provoque, em algum nível, alteração da consciência e do comportamento do indivíduo. O vício, entretanto, apresenta-nos espectro muito mais amplo quando extrapola o limite do uso de princípios psicoativos e deriva para questões como preferências e compulsões.

Vale lembrar que tanto a questão das viciações quanto das compulsões, são escolhas individuais, estimuladas por fatores externos ou internos. Estes inerentes à personalidade de cada ser, cujos pendores já traz desde existências precedentes. Contudo, em ambos os casos, as pessoas têm sempre a opção do reto caminho.
 
Os motivadores externos podem ser, por exemplo, a necessidade de aceitação dentro do grupo de amigos, cuja inclusão exige certo rito de passagem; a indução por fraqueza ou medo diante de uma situação difícil; a ilusão de que o uso da droga vai torná-lo invulnerável, mais forte e capaz para vencer as dificuldades; a ilusão de que pode ter as suas percepções intelectivas e cognitivas ampliadas, favorecendo-lhe o dinamismo e a criatividade, ou simplesmente removendo-lhe a capa de timidez.

Os motivadores internos são, conforme dito em parágrafo acima, os pendores e propensões trazidos pelo espírito reencarnante. Este, que em existência precedente foi portador de alguma viciação, cujas impressões e marcas dos danos morais e físicos ficaram-lhe gravadas em seus arquivos conscienciais – que têm no perispírito a sua sede – necessita impor-se a reparação através de novo processo reencarnatório, no qual terá que demonstrar força de vontade ante a tentação da recaída. Este o ponto onde muitos falham. “Sabe-se que as circunstâncias de um passado podem influenciar a transformação de uma pessoa que, em última análise, será sempre responsável pelas escolhas feitas na vida”.

O mesmo raciocínio pode ser aplicado às compulsões. Estas, de forma igual, exigem a reeducação do espírito e se manifestam na forma de “fantasmas” sexuais, gulodice, compras impensadas, etc. Os casos de dependência química e de compulsões atendem a um mecanismo inconsciente de fuga e insatisfação consigo e com a vida, não raras vezes levando ao exagero manifestado na forma de overdose, estupros e/ou práticas bizarras de sexo, obesidade mórbida e estouro das finanças pessoal ou familiar. Ambas dilapidam mais que valores materiais. Todas comprometem o equilíbrio das estruturas orgânicas, psíquicas e perispirituais do dependente e de seu círculo afetivo, acarretando compromissos reparadores para o espírito.      

André Luiz, no livro Missionários da Luz, refere-se a um campo espiritual de defesa que reveste o corpo fluídico. Segundo Geraldo Goulart, essa tela protetora pode ser rompida pela adoção de vícios, levando à falência o mecanismo natural de proteção do ser humano, o que favorece o trânsito de energias bastardas entre os centros de forças que alimentam o espírito e o perispírito. Aí sobrevêm as provações reparadoras e obrigatórias, pois a ruptura dessa carapaça fluídica do homem leva, invariavelmente, à devastação da saúde do corpo, causando-lhe a morte, às vezes antecedida pela loucura.

O livre arbítrio é a opção da livre escolha – como o nome sugere – que o Pai Criador nos deu para decidirmos sobre os caminhos que queremos trilhar na vida. Ninguém semeia trigo para colher arroz. A obsessão, por sua vez, é caracterizada pela ação pertinaz de uma mente sobre a outra, estando ambas em desalinho, posto que o processo obsessivo se instale pela afinidade energética. O que equivale a dizer, afinidade por sintonia de pensamentos. A prova, terceira assertiva, é a necessidade da reparação imposta pela consciência do faltoso, que lhe exige pôr-se quite com as leis regentes do Universo, através do autodisciplinamento que se constrói e consolida por meio do convívio com o motivo de sua queda pregressa, do qual devem resultar a resistência aos maus pendores e sua conseqüente superação.

Portanto, podemos concluir que os vícios são uma doença da alma que se enfermou pela escolha do caminho errado, em algum momento da trajetória do espírito, abrindo campo para a associação de pensamentos equivocados e afins, podendo resultar em quadros obsessivos complexos, demandando, desse mesmo espírito, em futuro próximo ou remoto, a reparação de seus desvarios pelas provas educadoras.

 

Francisco de Assis
Texto produzido para o trabalho do dia 07.03.2007
Centro Espírita Casa de Tio Hormindo

 

Referência Bibliográfica

André Luiz - Missionários da Luz", Ed. FEB, Cap XVII
Eurípedes Kühl – Artigo: Falando Sobre Drogas
Geraldo Goulart – Artigo: Responsabilidade no Fumar” Revista Reformador de Outubro/97


 
 
 
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