A Minha Religião é a Melhor?

Todos nós que abraçamos uma religião, temo-la como a melhor. Não há nada de errado em assim pensar desde que a expressão a melhor, não extrapole as fronteiras da opção pessoal. Sim, por que se todos pensarmos que a nossa é a melhor religião, continuaremos inseridos no campo do conflito de interesses pelas escolhas individuais e preferências pessoais, antagônicas às opções alheias e divergentes das nossas.

Entretanto, se entendermos que a religião abraçada por nós é a melhor porque atende aos nossos anseios, estaremos cobertos de razão. Afinal, não desdenhamos da religião alheia, mas oferecemos ao adepto de credo diferente a possibilidade de se expressar tal e qual nós gostaríamos de fazer.

Esse preâmbulo equivale a dizer que, em verdade, não há a melhor religião, mas a melhor escolha, pois sendo esta de fórum íntimo, deve estar em consonância com o momento e a compreensão de cada um acerca daquilo que lhe completa e que representa o conjunto dos postulados da doutrina abraçada por ele.

A Doutrina dos Espíritos não tem e não quer ter a pretensão de ser a melhor dentre as religiões e vários são os motivos para que dessa forma se manifeste:

a. Primeiro, se todas as religiões conduzem a Deus, desde que seus princípios não sejam falhos e atendam aos imperativos da ética, da moral e de valores edificantes do ser humano, não há uma melhor, mas todas são boas.
b. Segundo, pretender-se a melhor dentre as existentes seria faltar com a humildade e mostrar-se arrogante e incapaz de conviver com as diferenças, negligenciando a alteridade.
c. Terceiro, pretender-se a melhor seria desdenhar das demais e isso é falta de caridade, pois estaria se colocando em posição de superioridade, negligenciando a simplicidade.
d. Quarto, dizer-se a melhor seria crítica velada às demais e a crítica que, se bem fundamentada edifica, mal construída destrói e humilha, faltando com a indulgência.
e. Quinto, falar-se a melhor seria desrespeitar as outras em explícito quadro de intolerância.
f. Sexto, afirmar-se a melhor seria falsear num dos princípios da Doutrina Espírita, que não faz proselitismo, nem debate preferências, mas com todas convive e tolera as diferenças sem negligenciar a caridade.
g. Sétimo, acreditar-se a melhor é desrespeito ao próximo e à sua escolha, caracterizando violência dissonante dos princípios evangélicos.

A mim, atende a Doutrina Espírita que, em seu tríplice aspecto, eu a entendo da forma seguinte: é a ciência que pesquisa e descobre, a filosofia que discute e fundamenta e a religião que ampara e consola. Muitos podem dizer que isso todas fazem. Eu direi: ainda bem que todas o fazem, porque o Deus do qual se fala no Espiritismo Cristão é o mesmo do muçulmano, do judeu, do budista, do hinduísta, etc.

A assertiva acima só confirma o que já foi dito. Deus, que não admite predileção por um em detrimento de outro, revela os seus ensinamentos a todas as pessoas de boa vontade e de boa-fé, em todos os lugares e ao mesmo tempo.

O tempo ao qual me refiro aqui, não é o tempo contado em segundos, no compasso dos ponteiros de um relógio qualquer. Mas o tempo de que precisa cada um a fim de despertar para a sua condição de criatura que, na infância da vida se ilude, mas na madureza desperta e se convence de verdades outras, a ela reveladas no sono da imortalidade, ao longo das noites seculares.

Desembrutecido o espírito que, burilado com o cinzel da dor renasce para as venturas proporcionadas por Deus, liberta-se o homem da ignorância atávica e busca o progresso revelador para ascender ao mais alto, reconhecendo-se irmão de seu semelhante, de quem respeita e entende a liberdade de manifestar-se consoante o estágio evolutivo em que se encontre.

Francisco de Assis



 
 
 
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